B.B. King – A ponta do iceberg | Blues

Em qualquer parte do mundo que você falar de Blues, vão te citar B.B. King. Sem dúvida é o bluesman mais popular. Ele é a cara mais conhecida do Blues no planeta, a guitarra mais imitada e o sorriso mais amoroso de toda história do Blues. Mas ele é apenas a ponta desse iceberg, existem centenas de músicos tão bom quanto ele no Blues, que não tiveram a mesma projeção. Pouco a pouco quero ir mostrando todos esses bluesmen. Mas hoje quero falar dele, B.B. King, a ponta desse iceberg.

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É muito fácil amar B.B. King, porque sua forma de tocar o Blues, de cantar o Blues e de viver o Blues são o amor em explosão. Uma força e uma paixão que é impossível não se emocionar, mesmo não sendo fã de Blues.

Adoro falar de B.B. King, mas antes de contar qualquer coisa sobre ele, quero mostrar quem é esse cara. Para mim, a melhor forma de conhecer esse bluesman é assistindo a esses cinco minutos de Blues na prisão Sing Sing de New York, gravado na década de setenta.

Esse foi um momento histórico onde B.B. King levou o Blues para uma das prisões mais violentas da América. Foram mais de quarenta minutos de um êxtase indizível, onde o Blues, em sua infinita capacidade de unificar, colocou lado a lado mocinhos e bandidos – sem grades, sem correntes, sem barreiras – que hipnotizados pelo rei do Blues, abondaram por um momento a dor e o sofrimento do corpo prisioneiro e transcenderam ao som do Blues e à magia de B.B. King.

Dispensa comentários. Esse é B.B. King. Sempre entregado ao momento, seja numa prisão ou nas mais importantes casas de show do mundo com ingressos a quinhentos dólares. Ele não amava o Blues, ele era o Blues.

Esse video é parte de um documentário chamado Sing Sing Thanksgiving produzido por David Hoffman nos anos setenta. Foi todo gravado na prisão e pode ser comprado aqui nesse link da Amazon. O documentário conta a história de vários detentos e mostra a produção desse evento histórico que foi considerado pelo próprio B.B. King como uma de suas melhores atuações.

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Ele era simpático, alegre e sorridente. Seus fãs quando se aproximavam, não queriam fotos ou autógrafos, queriam abraça-lo, beija-lo, senti-lo. B.B.King tinha essa energia, esse sorriso enorme e um coração generoso. Quando era jovem seu maior desejo era que todo o mundo conhecesse o Blues, seu sonho era levar o Blues para o munto inteiro, e foi isso que ele fez.

Descendente de escravos africanos, ele nasceu no Mississípi e foi batizado Riley Ben. Cresceu criado pela mãe e pela avó em uma fazenda de algodão. Sua vida na fazenda não era muito diferente do que haviam experimentado todos os seus familiares. Riley trabalhava doze horas por dia, seis dias por semana, percorrendo oito quilômetros por hora colhendo algodão. Aos domingos ia á igreja. Cantar e tocar para Deus, junto com centenas de negros, condenados a miserável rotina nas fazendas de algodão do Mississípi.

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Riley provou todo preconceito e segregação da região mais racista da América. Mas ele queria mais que ser outro negro assassinado pela perpetuação do trabalho escravo. Ele queria cantar e tocar o Blues para todo esse país que o condenava à escravidão liberta, que queria condena-lo à vida braçal das fazendas do sul, que enriqueciam brancos e aniquilavam negros. Ele queria a arte, a música, ele queria tocar o Blues.

Com um pouco mais de vinte anos ele vestiu sua roupa de domingo e comprou uma passagem de ônibus para Memphis. Só de ida.

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Quando chegou a Memphis seu objetivo era ir a uma rádio de brancos que ele sabia que tocava músicas gospel, que tocava música de negros. Chovia muito nesse dia e ele não tinha dinheiro para comer nem para pegar um ônibus até a rádio. Caminhou vinte quadras. Chegou na tal rádio ensopado, com seu terno preto, gravata preta e chapéu preto, que tantas vezes usou para louvar á Deus nos domingos do Mississípi.

Na rádio, Riley tocou, cantou e conseguiu ser contratado nesse mesmo dia! Em pouco tempo além de tocar estava apresentando um programa na rádio. Isso era inédito! Um negro apresentando música negra em uma rádio de brancos! Ele foi o primeiro.

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Memphis WDIA era a rádio. O programa inicialmente chamava-se The Peptikon Boy, depois mudou de nome para The Beale Street Blues Boys, e Riley passou a a ser chamado de Blues Boy e logo ficou conhecido como B.B.BB_King_Laila_Vidal_Blog_2023

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Em pouco tempo B.B. era o rei da rádio, o rei do Blues. E logo passou a ser chamado de

Um garoto sofrido no Mississípi que quando foi perguntado em uma entrevista o que queria fazer com sua música, disse: “Tocar o melhor que puder. Alcançar o maior número de pessoas que puder. De países. Em outras palavras, gostaria que o país todo ouvisse B.B. King cantar e tocar o Blues”. E ele foi além.

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B.B. King ganhou o mundo. Com uma voz corajosa, e uma guitarra confiante, tocou o Blues até o dia de sua morte aos 89 anos. Sua música ficou conhecida em todos as partes do globo e todos os músicos o amavam, e queriam gravar suas músicas, e queriam tocar com ele. B.B. King era um rei, e foi uma referência da guitarra elétrica no século XX.

Me encanta sua história, e o amor que sempre emanou de seus olhos, de sua voz, de sua guitarra. Confesso que não foi dos primeiros bluesmen que conheci, mas passei muitas horas da minha vida com ele e fiz muitos quilômetros de estrada escutando suas músicas. Adoro assistir seus shows, me fascina vê-lo tocar e adoro seu sorriso. Irremediável. Deixo a seguir dois videos maravilhosos de B.B. King, dois grandes sucessos, em décadas diferentes.

B.B. King. Anos 50 – Three o’clock Blues.

B.B. King. África. Anos 70 – Why I sing the Blues.

B.B. King foi uma máquina de emplacar sucessos, entre 1951 e 1985 foram 74 entradas nas paradas de R&B da Billboard, onde ele se manteve em destaque. Mas entre tantos sucessos, há uma de suas músicas que tornou-se sua assinatura. The Thrill is gone de 1970. Foi gravada por dezenas de músicos e o próprio B.B.King participou de várias versões. Vou destacar aqui duas versões que adoro dessa canção. Uma com Tracy Chapman e a outro com Willie Nelson. E vou deixar também ele mesmo em sua versão dos anos 70. Mas algum dia, quero falar só dessa música.

The Thrill is gone – Anos 90 com Tracy Chapman.

The Thrill is gone – Anos 80 com Willie Nelson.

The Thrill is gone – Anos 70. B.B. King.

Suas parcerias foram intermináveis, a mais célebre foi com Erick Clapton. Não tenho muito interesse nesse músico, e acho que não quero falar dele, pelo menos não hoje. Prefiro seus outros parceiros! B.B. King tem trabalhos com John Lee Hooker, Jeff Beck, U2, Bonnie Rait, Koko Taylor, Etta James, Elton John, Willie Nelson, John Mayer, Van Morison, Sheryl Crow, Bobby Bland, Tracy Chapman, Gloria Estefan, Santana, e muuuitos outros músicos incríveis. Acho que vou ter que fazer outro post só para falar de suas parcerias… mas deixo aqui uma de minhas preferidas, B.B. King & Buddy Guy em 2010:

B.B. King foi um músico extremamente ativo que trabalhou muito, fazia mais de 300 shows por ano, além dos discos, entrevistas, clips… logooo tem muita história! Difícil falar dele rapidinho. Quero mostrar sua discografia, suas influências e contar um pouco das barreiras que ele teve que transpor para levar o Blues aos quatro cantos desse mundo racista, especialmente em sua pátria, onde o Blues era visto como uma música do demônio! Mas vai ficar para outro dia!

Maaas, antes de me despedir preciso falar sobre a Lucille!

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Lucille, como o próprio B.B. King conta foi aquela que o tirou das plantações de algodão. Foi sua maior companheira, a responsável por tê-lo lançado à fama, foi seu primeiro e eterno amor… sua guitarra! Sim, a guitarra de B.B. King chamava-se Lucille!

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B.B. King estava tocando em um bar quando dois homens começaram a discutir e brigar por causa de uma mulher. No meio do quebra-quebra acabaram rompendo garrafas e lamparinas e o bar incendiou-se. Todos saíram correndo em segundos. Já do lado de fora, B.B. King se dá conta que havia deixado sua guitarra dentro do bar. Ele volta pro local em chamas e resgata a guitarra, que a partir daí foi batizada como Lucille, o nome da mulher que gerou a discórdia entre os cavalheiros do bar!

Lucille é uma personalidade no universo Blues, incluso já foi apresentada ao Papa! Teve uma linha própria de guitarras assinada por B.B. King e figura entre relíquias no museu da música. Lucille também arrecadou milhares de dólares para instituições todas as vezes que foi leiloada em eventos beneficentes. Além, claro, de ter sido homenageada nessa música que se tornou um grande clássico do Blues.

O primeiro vídeo que mostrei aqui hoje, foi B.B. King tocando na prisão. Me fascina esse show. E para finalizar quero deixar um de seus discos que é dos meus preferidos. Também foi gravado em uma prisão nos anos setenta.

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Live in Cook County Jail, foi um show feito para os presos da penitenciária Cook Count Jail dos E.U.A. em 1971. Durante quarenta e quatro minutos B.B. King tocou seus maiores sucessos para uma platéia de assassinos, traficantes e estupradores. Essa prisão era considerada a mais perigosa dos Estados Unidos, era conhecida como The Jungle, por concentrar presos com crimes perversos, selvagens.

Mas naquele dia, naquela tarde de Blues no gramado do presídio, a unificação. O Blues nos torna iguais, porque somos essencialmente iguais, o que nos diferencia são as circunstâncias a que somos submetidos e que nos abrigam a reagir… às vezes com violência, ás vezes com ternura… e que outras vezes só nos permite resistir á dor para seguir vivos… e onde há dor há o Blues para curar.

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Esse disco, esse show, esse dia… tudo isso é parte da história do Blues, das histórias do Blues que Augusto me contava nas nossas tardes de gin e tapete. Esse disco era seu preferido de B.B. King e passou a ser o meu. Ele sabia tudo que havia acontecido nesse dia. Cada música que foi tocada e cada palavra que disse o rei do Blues à seu público. Me emocionava escutá-lo falar de Blues e essa era uma das histórias que me encantava ouvir. O Blues, os assassinos, a misericórdia, a culpa, a desigualdade… o perdão, o ódio… a ressurreição, o Blues… e ele, o cara que realizou o que foi uma das melhores atuações da história do Blues. Mr. B.B. King! A ponta do iceberg.

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