Meu primeiro Blues

Nos anos noventa ouvi em algum lugar uma música que me fascinou, era um Blues, que com muito custo descobri que era de um cara chamado Muddy Waters. Com essa única informação fui atrás de saber o que era aquilo numa época em que não existia internet.

Na banca de jornais não havia revistas sobre Muddy Waters, na biblioteca nada, nas lojas de música do shopping não tinham discos de Blues, meus amigos eram fãs de Nirvana e Red Hot… não tinha como encontrar algo sobre o Blues.

Continuei perseguindo aquele Blues e fui parar na Galeria do Rock onde encontrei Muddy Waters,  B.B. King, Ray Charles e um cara que já tinha vivido trinta anos mais que eu e sabia tudo sobre o Blues.

Nessa mesma tarde ele me convidou para ir a sua casa, me disse que tinha todos os discos do Muddy Waters e muitos videos de Blues. A possibilidade de ver em uma TV o Blues sendo tocado me fez esquecer os incansáveis alertas de mamãe para não falar com estranhos, fui.

Ele morava a três quarteirões da Galeria, bem no centro de São Paulo, zona proibida pra mim e minha vida de menina da Pompéia. Guto vivia sozinho em um apartamento de três quartos, dois deles estavam alugados para pranchas de surf e as bicicletas dos vizinhos. Os gatos eram dois, Etta James e Howlin Wolf. Ele me ofereceu uma bebida enquanto escolhia o primeiro disco de Blues, e antes que eu respondesse, disse que só tinha água e gin.

Passamos a tarde ouvindo sua interminável coleção de discos de Blues.  Ele me contava sobre cada disco, cada música e cada bluesman que escutávamos. O gin passou a ser minha bebida preferida desde aquela tarde, e o apartamento de Guto meu refúgio.

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Alí, naquelas tardes depois da escola, conheci Son House, Lightnin Hopkins, Otta Turner, Robert Johnson, Texas Alexander, Blind Willie Johnson, Sonny Boy, J. B Lenoir, Charlie Patton, Pinetop Perkins e a nata da nata dos clássicos do Blues.

Depois que me encontrava totalmente apaixonada pelo Blues ele passou a me contar a história por trás do Blues. Nas tardes com Guto conheci Paul Oliver, Alan Lomax, Leonard Chess, John Lomax e todos que contaram a história do Blues, uma história que nas palavras de Guto, era o registro vivo da resistência do negro na América.

Estava totalmente apaixonada. Pelo Blues e por ele.

Augusto, em latim significa “sagrado” e era isso que via quando ele me abria a porta a cada tarde que chegava ansiosa pelo êxtase que me causava estar alí, deitada no tapete, ouvindo aquela música tão antiga e preciosa.

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Ele me perguntava sobre minha vida, a escola, meus pais… mentia quase em noventa por cento do tempo. Estava alí escondida. Minha mãe me mataria se soubesse que estava indo para o centro sozinha, que estava na casa de um homem e que ele tinha tantos anos a mais que eu. Nem teria chance de contar quem ele era… e a relação que tínhamos. Ela me mataria. Guto era meu esconderijo, meu segredo, o sagrado, minha chance de viver dentro de uma cartola, um mundo dentro do mundo… minha passagem secreta.

O Blues é algo inexplicável. Nessa época não sabia quase nada de inglês e ainda assim aquela música me fascinava. Aquelas palavras cantadas por aqueles negros, filhos de escravos, que nunca haviam frequentado aulas de canto ou de música, me davam uma estranha sensação de segurança de tranquilidade. Compreendia aquilo tudo além das palavras, chorei inúmeras vezes escutando Mississipi John Hurt… até hoje choro quando o escuto.

E Guto sempre alí, me olhando, deleitando-se na imagem da menina paulistana, branca de classe média, transcendendo sua existência tão limitante na métrica do Blues.

Gostava da forma como ele me olhava. Acho que era um pouco como um pai deve olhar pra uma cria quando compartilham um pedaço de vida, em tempo e espaço. Mas estava apaixonada e nadando nos hormônios da juventude. Ele era Deus, eu queria ser pecado. Sabia o que ele pensava sobre Chuck Berry e vários outros que se envolveram com adolescentes… mas era diferente, eu era dele, era diferente…

Nesse dia cheguei um pouco mais tarde, me atrasei tentando enrolar o cabelo para parecer mais mulher. Estávamos escutando um disco do T-Bone Walker deitados no tapete. Ele nem percebeu o cabelo. Tomava gin com gelo, Augusto fumava e me contava sobre a guitarra elétrica nos anos 30. Ele amava falar de Blues. Eu amava escuta-lo. Mas pensava confusa se ele era gay, ou se eu era feia… Nunca havia tentado me beijar, ou passar a mão em mim… Parei de pensar, me virei e sentei sobre ele, com as pernas abertas, senti o pênis dele, duro, aumentando entre minhas coxas, olhei pra ele, tirei a camiseta, ele me pegou pela cintura com as duas mãos e me tirou do seu colo me jogando no sofá. Me disse que não podia. Seco e direto. Não posso.

Eu era dois olhos enormes, em pânico. Não tinha um plano B, havia saído de casa com a imagem fixa da tarde de sexo que viveria. Então disse a ele que não era mais virgem – mais uma mentira –  e que ninguém iria saber… Ele me disse que não. Me pediu para ir embora e voltar quando fizesse dezoito anos…

Voltei no dia seguinte. E no seguinte. E voltei por várias semanas. A porta nunca mais se abriu. Deixei cartas, bilhetes, súplicas e presentes. Mas a porta nunca mais se abriu.

Até hoje conto que minha primeira vez foi com ele. Mágica. Escutando Blues e amando o amor que ele me ensinou naquelas tardes. Mentira. Mais uma. A mais luxuosa mentira da minha vida. Um Blues. Meu primeiro Blues.

3 comentários em “Meu primeiro Blues

    1. Me lembro de cada dia que apertei o 51, disse Laila, e a porta se abriu… de cada tarde e de cada Blues que escutei com ele… e me lembro de todas as vezes que falei dele, que contei da minha primeira vez com ele, que nunca aconteceu… e quando escrevi esse post foi a primeira vez que confessei esse mentira, esse Blues…

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