Desterro

Meu corpo afundando cada vez mais na areia, sendo sugado por ela cada vez que me movia tentando sair dali. Paralisava de desespero e então tinha que respirar como alguém que estivesse nos seus últimos segundos de vida, comido por um enfisema, tão de leve quase sem mover o tórax, para não tragar a areia fina que me engolia.

Já estava com o corpo todo submerso na poça de areia, só meu nariz e meus olhos ainda tocavam o ar, queria gritar por ajuda, via as sombras das pessoas passando ao redor mas abrir a boca me inundaria de areia.

Permaneço calada com a boca fechada enterrada na areia. As sombras não param de passar mas nenhuma olha pra baixo.

Quanto tempo ainda aguento sem me mover? Respirando em câmara lenta? Pouco…

Me lembro que o tempo dos sonhos não é o mesmo tempo de Deus e com toda força levanto meu braço pra fora de poça de areia na esperança de que alguma das sombras visse um braço de mulher saindo de um pequeno buraco de areia no meio da calçada e fosse me socorrer.

Mas esse movimento do braço só serviu para dar força à areia, que sem muito ensaio termina de invadir meu corpo, entrando pelo meu nariz, pelos olhos e pela boca, que enfim se abre num grito que jamais saiu, atropelado pela enxurrada de areia branca que me empalhou como um corvo… como um corvo não, ninguém empalha corvos, como uma ave, dessas bonitas e raras que de tão atraentes chamam a morte, que pela cobiça terminam com a barriga cheia de areia decorando o escritório de um caçador de faz de conta.

Morri alí numa poça de areia que me sugou, como nos desenhos de areia movediça. Ninguém pôde me socorrer. Ninguém viu que morria.

Horas depois uma menina se aproximou da poça com seu baldinho azul e uma pazinha de plástico. Começou a cavar para construir um castelo, encontrou um tufo de cabelos negros, não se deteve, seguiu cavando, depois a pazinha bateu em minha testa, mas ela seguiu cavando, só parou quando sua pá entrou pela minha boca cheia de areia e ficou presa em meus dentes.

A menina gritou veio a policia, isolaram a área e não retiraram meu corpo até o anoitecer.

Assim age a noite. Espera que eu durma, e alí inconsciente, me mata em sonho noite tras noite. Me faz viver a morte, sem ar e sem socorro, para que me prepare pro grande enterro que se aproxima. Espero.

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