A menina do canil

A única coisa que desejo mais que morrer é me desvendar. Talvez por isso ainda esteja aqui, imersa em rituais, leituras e indagações. Vasculhando cada segredo, cada lembrança em busca de uma pista que me leve a mim.

Lembro de quando era pequena e rezava a noite para que ninguém falasse comigo de dia, que não me perguntassem nada, porque falar me violentava. Responder um bom dia era o primeiro grande sacrifício. Passei muitos anos até consegui-lo. Ouvir minha voz me assustava, escutar o que falava me incomodava. Desejava manter silêncio mas era impossível porque o mundo não suporta uma criança silenciosa…. na infância o silêncio é criminoso, doença, falta de educação.

Meu irmão dizia para as pessoas que eu era autista. Nunca fui. Só preferia o quarto ao parque, os livros às pessoas, os discos às conversas. Preferia a solidão. Nasci com essa falha genética ou talvez um trauma na alma, como me explicaria mais tarde uma amiga fã de Kardec.

Mas a verdade é que me sentia como um cão. Quando se dirigiam a mim, tinha muita dificuldade de responder qualquer coisa, era como se pudesse entender o que diziam, mas não pudesse responder na língua deles, tal qual um cachorro que é capaz de ir até um lugar que lhe ordenem, entendendo cada frase que proferem os humanos, mas sem poder emitir uma única palavra em resposta.

Escrever era a única coisa que me acalmava, que me tornava mais humana dentro do meu canil. Que me fazia sentir aliviada por poder falar, mesmo que em linhas, sem ser interrogada. 

Mas depois de escrever, eram diários, vinha o desespero de manter aquelas palavras ocultas, de esconder aqueles cadernos dos humanos que viviam em casa. Eram quatro, efetivamente três, a empregada não sabia ler, não era uma ameaça.

De inicio era apenas um diário, que se colocado na prateleira entre os cadernos da escola se ocultava sozinho. Mas com o tempo amontoavam-se diários no canil, sete, nove, doze, eram muitos caderninhos escondidos. Já não me sentia como um cão e sim como uma personagem de Alan Poe, ocultando cadáveres nas paredes da própria casa!

Sabia que podia ser descoberta, e assim como na história de Poe, tinha medo mas também desejava que isso acontecesse. Que encontrassem meus diários e talvez pudessem me entender e me explicar. Mas isso nunca aconteceu.

Em uma tarde de sábado que estava sozinha em casa, escrevi o que seriam as ultimas palavras. Uma carta. Uma de tantas cartas de suicídio que já havia escrito. Depois, retirei cada caderno de seu esconderijo. Eram quinze.

Tinha agora um saco de lixo preto com toda historia de uma vida no canil. Queria fazer como nos filmes e queimar todas essas paginas numa lareira, mas morava em um apartamento frio e sem lareira. Também não podia ir a casa de ninguém fazer isso, era demasiado intimo para compartilhar.

Tive que abandonar o saco preto cheio de historias mortas na lixeira do prédio. Fiquei na janela esperando o caminhão passar pra ter certeza que os diários seriam triturados junto com os restos de comida e toda podridão dos vizinhos.

Tudo isso demorou tanto que quando ia iniciar a preparação para o suicídio os moradores começaram a chegar, já era noite. Assim que ouvi suas vozes entrando  pela cozinha, corri pro canil, sentei na escrivaninha, abri a carta e fingi escrever.

– Boa noite. Que esta fazendo?

– Escrevendo uma carta…

– Já comeu?

– Não tive tempo…

– Aposto que não saiu do quarto o dia todo, você vai acabar doente se continuar aí fechada!

– Melhor…

– Que!?

– Melhor… sair do quarto e… ir jantar… com vocês…

– Sim, melhor mesmo! Tenta ser um pouquinho normal pelo menos no fim de semana né minha filha, por favor!

Fui pra sala tentar ser normal, sentar à mesa com meus irmãos, comer pizza e falar da escola. Comecei a sentir-me tonta, meus pés começaram a formigar, depois as mãos. Escutava um zumbido forte no ouvido e de novo me sentia como um cão, ouvindo as pessoas falarem comigo, sem poder responder nada a elas. Senti meu ombro se soltando e a cabeça balançando de um lado a outro presa ao pescoço por um fio que puxava o fundo do meu estômago. Vomitei ar na mesa e depois não lembro de mais nada.

Até hoje me contam do dia que desmaiei na mesa num sábado a noite, fraqueza disse o médico. Ele estava certo. Naquele sábado que esvaziei o canil me faltou força para fazer qualquer coisa, matar-me ou latir.

Ainda hoje escrevo pra me acalmar e me fecho no canil quando tentam falar comigo. Décadas me separam da menina, dos diários, do canil… mas sigo escrevendo cartas de suicídio e tentando ser normal aos sábados.

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