A gaiola era uma mansão

A gaiola era uma mansão. Pensou ela em voz baixa enquanto desfazia as malas. 

Podia dar minúsculos voos entre os dois poleiros, todos os dias recebia água fresca e comida em abundância. 

A gaiola era uma mansão. Pensou ela em voz baixa enquanto acomodava novamente as roupas no armário.

Podia dormir e acordar em segurança, viajar sem se preocupar com dinheiro. 

Sim, a gaiola era uma mansão. Concluiu ela ao ver todas aquelas janelas para rua e toda aquela gente sorridente ao vê-la de volta. 

Uma mansão. Todo conforto do dinheiro, toda paz da segurança. Definitivamente, a gaiola era uma mansão. 

Os dias foram passando. Meses. Onze. Doze. Um ano e meio. Dois. A mansão foi ficando pequena. A comida repetitiva. O sol só entrava pelas janelas cinco meses por ano. Os sorrisos viraram vozes. Os cantos, esconderijos. 

Não via mais a mansão. Só grades. Ferro. Corrente. Cadeados. Era apenas uma gaiola. A mansão virou uma gaiola. 

Acordava e só pensava em abrir as asas, voar pro sul, dormir de cara ao sol. Sabia que não existia mansão, nem gaiola, tudo era desejo, tudo era ficção. 

Ok, podia partir de novo. Certamente partiria. Mas agora sabendo que não existe mansão grande o bastante pra abrigar seu desejo, nem gaiola forte o suficiente pra trancafiar sua própria criação. 

3 comentários em “A gaiola era uma mansão

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