Corpo-cativeiro

O dia que me matei, foi absolutamente normal, como quase toda minha vida. Acordei, chá, banho, secador, batom, carro, semáforo, digital, excell, frango assado com farofa, xerox, café, risadas, reunião, buzina, buzina, buzina, portão, elevador, sanduíche de atum, televisão, chuveiro, vodka, cama… poderia ser assim pra sempre, e seria. Já tinha acabado fazia tempo, vida mesmo só existia na minha cabeça. 

Pra ser sincera, nem sei ao certo se morri ou me matei. O que sei é que não acordei mais naquela vida, nem em outra. 

Sei também que des-existir não dói, se é que essa palavra já foi criada… bom, se existe ou não des-existir, não importa mais diante do fato de que a não-existência está carregada de nada e isso é calmante! Um calmante constante July, não como a morfina, que anestesia e depois, pouco a pouco a dor vai imergindo… um calmante com um efeito que nunca passa, como se o corpo nunca tivesse existido, como se você nunca houvesse experimentado o peso de carregar um corpo, cheio de ossos, e tecidos, e sangue e fluidos e essa carcaça toda que temos que arrastar pelo mundo para proteger nossas almas do impacto diurno com outras almas… 

Desculpe! Me desculpe! Oh July, sorry! Sei que não devo falar sobre essas inexistencias com você! Mas agora vivo aqui, e não há nada além do inexistente ao me redor, sei que vai lhe parecer vazio e triste mas acredite, se não em mim, na que um dia fui; a fluidez insensata do nada é imparável e a sensaçao vertiginosa da genuina liberdade é mais bela que o mais belo dos corpos, desses corpos como o teu, como aquele que chamava de meu, de eu… aquele corpo-cativeiro, aquela jaula… onde somos jogados e obrigados a nos debater lá dentro até a exaustão do espirito ou a deterioração da carne, o que vier antes.

Não chore July. Não chore ao ver-me no ataúde… são apenas átomos desfragmentando…a inexistência é maior que a vida, mais limpa, mais ampla, mais lúcida… mas também não se entusiasme em vir para junto de meu nada, mamãe sofreria demais… e você… você nasceu de olhos fechados, numa tarde de primavera! Não chegou aqui como eu… de olhos abertos, farejando o vento, numa noite de tempestade…

Aproveite seu corpo irmã, eu não pude, era um cativeiro.

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