Gatilho frouxo

Tenho um pouco de medo de gente maluca. Não por eles, é mais pelo gatilho frouxo que carrego em mim, só esperando uma mão dessas se aproximar demais e deslizar o dedo… Hoje me assusto com esses caminhos que não tem volta. Com esse tudo ou nada dessa gente apaixonada. Eu não, não faço mais parte disso, mudei de pavilhão, me transferiram para ala dos estoicos e hoje vivo em uma berlinda à prova de balas… Mas a blindagem só funciona se me mantenho aqui, dentro da berlinda, fora dela volto a ser apenas mais uma peça de carne, suculenta e macia a espera do próximo faminto… Eu sei, ajustar o gatilho seria mais inteligente… ajustar o gatilho e disparar… disparar antes que me disparem, que me dispare… sei lá,  talvez o melhor mesmo seja ler Kafka… abrir e fechar a loucura alheia, e depois cravar os olhos e dormir…

Dormir sem sonhar, como fazem os lobotomizados do pavilhão dois… gatilhos ajustados, desejos dissipados e um grande travesseiro branco de pele de cadáveres… assim dormem eles, assim dormirão, até desconfiarem que também estão mortos… mas isso só acontece depois que já arrancaram-lhes a pele para fazer mais travesseiros… não importa, outros virão, sempre vem… as diárias são caras mas sempre será mais econômico pagar a clínica do que manter uma arma desregulada em casa.

 

 

 

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