Bigode

Vi um homem de bigode. É muito raro ver nos dias de hoje um homem de bigode. A maioria usa barba e bigode, ou barba sem bigode, ou nem barba nem bigode.

Esse homem não, ele tinha só bigode. Estilo Belchior. O bigode estilo Belchior, o homem não. O homem era baixo, assim da minha altura. Não era bonito. Mas tinha um bigode. E um homem de bigode nos dias atuais é muito intrigante.

Passei a correr todo dia no mesmo horário só para ver o homem. Não bem o homem mas sim o bigode do homem.

Corro a noite, numa pista ovalada em Adrianópolis, toda iluminada, rodeada de grama e jardim e um jambeiro enorme, flores de todas as cores e agora tinha um homem de bigode que também corria lá todas as noites.

Pegava sempre o sentido oposto do dele para poder vê-lo de frente. No começo olhava discretamente, não queria que ele percebesse. Mas foi inevitável.

Logo notou meu olho vidrado nele e ficou sem jeito. Abaixava a cabeça quando passava por mim. Mas já não podia me controlar, tinha que vê-lo, todos os dias.

Segui. Ele não. Um dia, dois, três… e nada do homem nem do bigode. Um dia acabei indo pra pista em outro horário e lá estava ele. Correndo com o bigode em plena luz do dia. Não pensei duas vezes, mudei de horário. Mas o homem continuava incomodado comigo e passou a correr acompanhado.

Era outro homem. Sem bigode. Agora ele corria escoltado. Não me importava. Queria aquele homem. Não bem o homem, queria o desejo do bigode.

Agora que ele corria acompanhado pude escutar sua voz. Cada vez que nos cruzávamos na pista escutava algo.

Na primeira vez que o escutei ele falava sobre uma mulher, seu amigo dizia que ela era dançarina e ele dizia que ela já havia nascido bonita.

Já havia nascido bonita… de quem será que ele falava? Uma namorada, amante, uma vizinha? Não, acho que não, ele era velho, talvez falassem de uma neta, ou uma sobrinha…

Bom, não importa. Passei toda minha vida mergulhada em uma intensa indisciplina hedonista e agora por primeira vez consigo manter-me por mais de um mês correndo religiosamente todos os dias! E tudo graças a um homem de bigode que nunca troquei uma única palavra. Gostava daquilo, era estimulante.

Nos cruzávamos todos os dias na pista, admirava seu bigode, amava ele. Ficava imaginando como deveria ser a vida de um homem de bigode. No que será que ele trabalhava? Onde morava? Na minha imaginação ele dirigia um opalão preto e tomava conhaque de manhã, tinha várias mulheres e escutava Fagner enquanto engraxava os sapatos.

Nos meses seguintes continuamos correndo na mesma pista ovalada do Adrianópolis. Eu feliz com minha imaginação, o bigode incomodado com meus olhos em cima dele.

Com o tempo parei de correr e passei a caminhar só pra passar mais lentamente ao lado do bigode. Ele não gostou, mudou de horário. Descobri. Mudei também. E assim mais alguns meses, ele mudando de horário, eu atras. Até que um dia, uma noite (estávamos correndo no horário da 19:30 agora) ele apareceu, pontual como sempre, com uns tênis novos, desses com cores fortes e sem o bigode.

Quase irreconhecível passou por mim uma vez, bem na curva do jambeiro. Ali petrifiquei, ele deu a volta e vinha de novo, ia passar por mim outra vez, não conseguia me mover, estava ancorada na pista, embaixo do jambeiro sem saber o que fazer. Ele passa por mim mais uma e outra e outras vezes mais, não consigo levantar os olhos do chão, vejo seu tênis colorido passando por mim a cada dois minutos e meio mas não posso encará-lo. Não posso olhar aquele homem assim, sem o bigode. Traidor. Vil.

Parada embaixo do jambeiro passo 45 minutos sem conseguir dar um passo sequer. Ele termina a corrida, alonga, bebe água, entra no carro (um Honda desses qualquer) e segue para sua vida sem bigode. Seguramente uma vida qualquer.

Passei três dias de cama. Desliguei o telefone por outros quinze dias mais. Tomei seis litros de conhaque de alcatrão em dois dias e no vigésimo primeiro dia decidi voltar a vida. Agora faço Yoga, pelo youtube claro, é mais seguro ficar por aqui.

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