A vida sem relógios

Hoje não fiz nada do que tinha que fazer e isso tem um nome, procrastinação. Odeio essa palavra, feia de falar feia de escrever.

Desde que me demitiram da editora há três semanas desatualizei os relógios. Todos. Cada um marca uma hora diferente.

Acordo sem saber que horas são, como quando tenho fome e durmo quando tenho vontade de dormir… de resto não faço quase nada do que deveria estar fazendo… Leio, desenho, escuto Blues, escrevo historias, assisto filmes, bebo vinho, só saio de casa pra buscar alimentos e mantenho o celular em modo avião.

Hoje, excepcionalmente hoje, saí pra comprar tecido. Doze metros de seda. Pura. Sempre quis dormir todos os dias em lençóis de seda mas achava que não podia me dar ao luxo. Era uma mísera assalariada, agora não, agora é diferente, sou desempregada num pais falido, já posso gastar o pouco que me resta de dinheiro pra dormir deslizando e depois me desesperar.

Até gostaria de me reconectar, retornar as ligações, entrar no whatsapp, responder os e-mails, buscar um novo trabalho… mas não consigo falar, tenho esse defeito desde criança, quando fazia xixi na calça pra não ter que passar pela sala e ir ao banheiro, quando tinha visita em casa. Não conseguia abrir a boca e dizer boa noite. Estou meio assim agora.

Desço de escada pra não ter que dar bom dia pra ninguém no elevador, me cairiam os olhos se alguém me encarasse, mesmo que fosse o porteiro querendo entregar a conta de luz.

Preciso levar a seda pra costureira. Ela mora no quarto andar. Ela gosta de conversar. Penso em desistir, não posso ver ninguém agora… coloco a seda em duas sacolas grandes com um bilhete e cem reais, será que paga? Chamo o elevador. Rezo pra não entrar ninguém. Quarto andar. Coloco as sacolas no capacho da costureira, olho pras escadas, toco a campainha e saio correndo.

Desço rápido as escadas, entro em casa e o interfone toca. É a costureira. Pergunta furiosa se fui eu que deixei umas sacolas na porta dela e toquei a campainha. Com um esforço sobre humano consigo dizer “sim”. Ela grita lá de cima que não vai fazer costura nenhuma pra mim e que da próxima vez pensasse em minha avó antes de importunar uma senhora cardiaca às três e meia da manhã.

As luzes dos apartamentos começaram a acender, apaguei a minha e juro que amanha vou ajustar de novo os relógios, todos eles.

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