Criadas na ponta da agulha

Costurou-lhe a boca. Ela o olhava em silêncio enquanto limpava a blusa de renda, respingada de sangue da sua própria carne.

Ele havia lhe avisado inúmeras vezes que não falasse mais sobre isso. Mas ela não o fazia por maldade.

Costumava chamá-lo quando estava só. Sempre em pensamento para que ninguém naquela casa ouvisse, principalmente seu pai. Mas as lembranças eram alegres e a alegria gritava e os sorrisos escapavam.

Sorrir estava proibido. Assim como as brincadeiras, as festas, os jogos… tudo que lembrasse alegria ou divertimento era uma blasfêmia naquela casa.

Seu pai não podia admitir manifestações de contentamento mas para isso tinha que ter mãos de ferro. Eram quatro meninas, com idades entre 4 e 12 anos que tiveram que ser educadas na ponta da agulha.

A mais velha levou só um ponto, no canto da boca. Era a mais madura e a mais séria mas as vezes lhe escapava um sorriso de canto que o pai logo resolveu com linha e agulha. As duas do meio tagarelavam muito, o dia todo, falando e dissimulando risinhos. O pai teve que costurar-lhes a língua. Calaram-se. A mais nova ele acabara de costurar-lhe a boca toda.

Ele nunca pensou que chegaria a esse ponto. A boca toda. Mas ele havia avisado. E avisado. E avisado. Mas e menina, por ser a caçula, a pequena, além de sorrir e de recordar do irmão morto, perguntava por ele. Quando ele volta? Dizia ela. Pra onde ele foi? Agora não haveria mais perguntas.

Na hora do jantar a mais velha preocupada com a pequena, e sendo a única das quatro irmãs que ainda podia falar, interpelou o pai sobre como ela faria para se alimentar com a boca daquela forma. Ele olhou para a filha mais velha. Parou o olhar sobre o ponto que lhe havia dado no canto da boca para parar de sorrir e disse com naturalidade – ela encontrará uma forma, todas vocês encontraram.

Como os pontos eram recentes, sua boquinha estava toda perfurada, e sangrava, não seria possível tentar enfiar nada pra dentro. Foi dormir com fome a pequena.

No meio da noite a mais velha escutou um barulho estranho. Era como se alguém sugasse algo por um canudinho. Mas fazia muito frio e não quis levantar-se. Perguntou ás irmãs de estava tudo bem, ninguém respondeu. Então estava tudo ok. Voltou a dormir.

Passado mais um tempo voltou a despertar com o mesmo ruído. Sentou-se na cama e o ruído parou. Novamente perguntou se estavam todas bem. Nada de resposta, como seria o esperado e voltou a dormir.

E assim foi acordada mais algumas vezes  durante a madrugada pelo mesmo ruído que sempre parava quando ela se movia para levantar.

Por conta da noite mal dormida, a mais velha, que era responsável por preparar o café da manhã, acordou atrasada. Saltou da cama e partiu voando para cozinha.

Com a ajuda das duas irmãs já cicatrizadas conseguiu estar com a mesa posta antes que o pai adentrasse a sala. Mas assim que sentaram-se a mesa o pai sentiu falta de algo. A pequena. Onde está? Perguntou enérgico. Está no banheiro! Adiantou-se a mais velha e pulou da mesa em direção ao quarto para trazê-la imediatamente antes que o pai se enfurecesse.

Vamos vamos, levante-se, o café da manhã está servido e papai já está na mesa! A menina não se moveu. A mais velha se aproxima da cama chamando baixinho o nome da pequena mas ela não se move. Ela está assustada, lembrou-se dos ruídos da madrugada e se apavorou. Então retira de uma vez o cobertor que oculta a face da pequena e dá um grito de pavor. A pequena estava seca como se algo a tivesse sugado toda por dentro. Ela ainda está viva e apertando os lábios sugava seu próprio sangue pelos buracos feitos pela agulha de costura. Seu travesseiro era uma poça de sangue que já escorria pelo chão. De olhos abertos ela suga as últimas gotas de sangue quando o pai entra no quarto.

Com a boca cheia de sangue que não havia conseguido engolir ainda, a menina tenta esboçar um sorriso para o pai, mas as linhas a impedem, o sangue de entro da boca pressiona para sair e acaba por estourar as linhas que a costuravam. O sangue lava a pequena camisola branca. Com os fios de linha partidos pendurados nos lábios ela sorri do fundo da poça de sangue e vai se juntar ao irmão, que um ano antes deixou aquela casa com os olhos costurados. Menino curioso viu o pai costurando a mãe de madrugada.

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