Matadouro

Estou na fila de um matadouro. Cansada. Suja. De quatro. Procuro por uma corda. Lá no fundo, no final do longo corredor escuro vejo um fio. Ele brilha. Acho que piscou pra mim. Levanto. Avanço pelo corredor . Corro em direção a ele. Será forte o suficiente para suportar o peso de um corpo? Não posso ir mais rápido. As poças de água fétida que encharcam o piso escondem latas, lixo, cacos, e sangue. Se o corredor não estivesse na total escuridão certamente o chão seria vermelho.

Piso nas poças de sangue. Ainda não é o meu. O sangue tem cheiro de ferro e respinga nas paredes… encharca meus pés, minhas meias, minhas botas.

Jurei que jamais cruzaria esse corredor sozinha. Mas eles me abandonaram. Venderam seus filhos e partiram-se. Não tiveram escolha. Tinham medo da dor. Eu não. Por isso ainda me mantenho aqui, viva.

A dor já não me dói. Me arrancaram um olho. E parte da mão esquerda. Já não sinto nada. Me adapto rápido demais. A dor me alivia. Me impede de pensar.

Mas esse fio lá no fundo pode me libertar. Preciso chegar até ele. Avanço mais uns metros. Ali está ele. É um fio longo. Vai até o chão. Sorrio pela primeira vez em meses. Servirá! Me aproximo trêmula. Não de medo. De emoção. Como se estivesse prestes a tocar um manto sagrado. O fio da imortalidade. Que me levará do matadouro para o paraíso celestial. Envolvo-o com a mão direita e puxo-o de um golpe só. Abro a mão e ela está vazia. Olho pra cima. Penumbra. Mas o fio segue ali. Agarro ele de novo e quando puxo, nada. Ele segue ali.

Paro um momento, respiro fundo. Cheguei até ali, calma, falta pouco. Observo com atenção o fio que poderia me salvar mas percebo com dificuldade, devido a escuridão, que não era um fio e sim um feixe de luz, que passava entre as gélidas barras de ferro que soldavam a única porta de saída do matadouro.

E fim! Disse a garota de 14 anos ao terminar de ler a redação sob o tema “minhas férias de verão”, diante de uma sala muda.

Natália, querida… – disse a professora – acho que você fugiu um pouquiiinho do tema. O que você acha de reescrever a redação e trazer pra gente amanhã?

A garota olhou para professora sem entender a pergunta. Havia escrito sobre o tema! Assim foram as férias de verão. Porque queria que fizesse outra redação? Ok, vou tentar, respondeu resignada.

Ao chegar em casa, tudo igual, seu irmão pequeno sujo e com fome, esperando aos prantos ser atendido por ela, enquanto sua mãe dormia depois de ter passado a noite trabalhando. Todas as janelas fechadas porque seu pai não queria que vissem o tratamento que dispensava a menina. Gritos e surras, por tudo e por nada.

A noite, trancada em seu minúsculo quarto, foi reescrever a redação. Pegou uma folha limpa de caderno e escreveu, Minhas férias de verão… Seu pai gritou por ela da sala, discutia com a mãe que saia para o trabalho e o irmão soluçava jogado no chão da cozinha em meio a toda sujeira do mundo. Natália imbecil! Venha cá! Está surda? Leve seu irmão daqui!!

A menina pegou o irmão, dois pedaços de corda que escondia em baixo da cama e se trancou no banheiro. As férias de verão acabaram para sempre.

5 comentários em “Matadouro

  1. Para mim, a dialógica no texto não permite dizer cumplicidade, pela idade tenra do irmão que não permite muita independência… Por isso compaixão… Mas concordo que independente do sentimento, o elo é o fator motivador…
    De qualquer modo são interpretações… A maneira como recebi um texto muito bem escrito… Casou comoção…

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    1. Acho que o irmão não é um bebê, é a dependência. Que era o elo que a mantinha ligada àquele lugar…. por isso o pegou para acabar com tudo no banheiro… só assim poderia…
      Bueno… acho que seja isso, é difícil entender a língua do subconsciente… Escrevo historias mas nao sou escritora então nunca sei bem do que se trata exatamente o que escrevo.. apenas escrevo o pouco que o inconsciente me deixa ver.

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      1. Acho interessante isso… Eu escrevo por hobby, mas como é sempre baseado em experiências, expectativas ou pensamentos, sei exatamente onde quero chegar… Já essa escrita inconsciente… Acredito… E acho que só escritores de verdade encontram essa maneira de escrever…

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