Um vestido preto e duas mordidas na pele

 Me morde? Perguntou ela já no primeiro encontro. Que??  Vem, me morde! Aqui! Bem aqui, disse ela mostrando o ombro direito e fechando os olhos enquanto os oferecia.

Ele achou estranho. Acabaram de se conhecer. Mal tinham dado uns beijos e ela lhe pedia para morder-lhe o ombro.

Mordeu. Assim meio sem jeito. Bem de leve para não machucá-la. A mulher suspirou e abriu os olhos decepcionada. Adeus! Disse ao descer do carro batendo a porta com fúria.

Era o décimo segundo. Todo mês buscava homens para um relacionamento sério. Mas eles nunca cumpriam os requisitos mínimos. Chegava a sair com 20 em um mês, numa busca desesperada por um, apenas um homem que lhe servisse.

Os requisitos não eram assim tão raros. Ele poderia ser alto ou baixo, gordo ou magro, gostar de qualquer estilo musical, poderia exercer qualquer profissão ou ter qualquer preferência política, não importava. Ele só precisava ter dentes fortes.

No início, quando ela saía com algum pretendente, fazia todo um jogo de sedução e só depois de se sentir segura com relação ao candidato fazia o teste. Mas agora não tinha mais paciência. Desde que seu último namorado havia partido queria alguém e rápido.

Uma noite marcou um encontro com um rapaz mais novo pelo tinder. Na foto do perfil ele estava com um sorriso enorme, aqueles sorrisos de boca aberta, e ela pôde ver todo seu arsenal. Eram 32 enormes dentes, brancos em perfeito estado. Ela encheu-se de esperança! Perfume francês e a melhor roupa para impressioná-lo.

Tiro e queda, haviam sido feitos um para o outro! Quando ela pediu a ele que a mordesse, seus olhos brilharam, de ambos.

Em silêncio, ele pegou o fino braço dela com as duas mãos. Admirou-o como se fosse uma bela peça de carne e começou pelo punho, dando um leve mordisco apenas com os lábios. Daí foi subindo, antebraço, braço, cada vez aumentando a intensidade da mordida e olhando para ela depois de cada dentada. Ela fechava os olhos, jogava a cabeça para trás e gemia. Quando chegou ao ombro ele parou, fitou-a com paixão, ela estava extasiada. Lambeu-lhe o ombro, fechou os olhos e cravou os dentes naquela carne macia e iluminada, apertando cada vez mais forte até ela gritar de dor!

Com a boca manchada de sangue ele sorriu e lambeu o sangue que escorria pelo braço dela. Encantada, beijou-lhe a boca desesperadamente. Estavam apaixonados.

Como namorados, se não fossem as mordidas, seriam como qualquer outro casal. Amigos, confidentes e parceiros. Ele fazia tudo por ela. Ela fazia tudo por ele. E mais que tudo eram cúmplices.

No início as mordidas eram dadas em partes do corpo que ninguém pudesse ver, além deles. Era um segredo. Mas com o tempo passaram a morder em outras partes, que inevitavelmente se descobriam ao público, ganhando protagonismo nas rodas de fofoca.

Ela não se importava com a falação dos amigos, nem no trabalho. Pelo contrário, se divertia com isso. Certa vez uma amiga lhe pergunta ao telefone como ia vestida á festa do escritório, e ela lhe diz: vou com um vestido preto e duas mordidas na pele! Os amigos se horrorizam. Tentam convencê-la a deixar namorado, a fazer uma terapia. Eles não entendem… pensa pra si mesma. Mas não se anima a explicar. A dor tem tantas nuances que precisaria de mais quinhentos dias de Sodoma pra começo de conversa!

Eles estão cada vez mais felizes, cada dia mais cúmplices. Algo muito forte os une. Sexo eles não fazem mais e assim deixam de ter os problemas que afetam a maioria dos casamentos; ciúmes, desconfiança, mentiras. São fortes. A dor os fortalece. Mantém-os vivos e indestrutíveis. O medo das pequenas coisas se esvai e das grandes fica pequeno diante da dor e do prazer imensurável que ela proporciona.

Certa vez, jantavam em um restaurante e encontraram um ex-namorado dela. Enquanto ela os apresentava, o ex assusta-se com a quantidade de hematomas que ela tinha espalhados pelo corpo. Ela usava um vestido leve de verão e a pele cheia de marcas que saltavam aos olhos de qualquer um. Chamou-a de canto e apertando-lhe o braço, disse enérgico – O que é isso? O que esta fazendo? Queres se matar é isso? Afaste-se disso! Vou denunciá-lo! – ele nunca entendeu, pensou ela, e saiu sorrindo acompanhada de seu grande amor.

Ele gostava de satisfazê-la. Vê-la gemer de dor. Adorava marcar seu corpo, ver o sangue escorrendo das pequenas perfurações feitas pelos seus dentes. Nunca tinha feito isso antes. Mas quando lhe pediu que a mordesse naquele primeiro encontro ele se apaixonou irremediável por ela.  E se apaixonou também pelo poder que a dor exercia. E pelo poder que ela havia concedido a ele ao entregar seu corpo ao nobre sacrifício no êxtase. Ele a amava. Seu sangue era o ar. Precisava dele, dela, dos gemidos de dor.

Nessa mesma noite do encontro com o ex, batem a porta de madrugada. Era a polícia. Haviam sido denunciados. Ele foi levado para uma cela, ela ao hospital. O apartamento foi revistado e dele retirado pilhas de lençóis manchados de sangue e toalhas ainda encharcadas.

Com tantas provas e depoimentos de amigos ele foi prontamente condenado por agressão. Ela fez de tudo para defendê-lo mas os juízes eram conservadores e não entenderem seus argumentos.

Na prisão ele sofria mais que tudo pela ausência de sua pele, sua carne, seu sangue. As visitas estavam proibidas, baseado em uma tal síndrome de Estocolmo. Ele não comia, mal dormia. Não podia viver sem ela. Estava definhando.

A advogada dele estava preocupada, não sabia mais o que fazer, ele morreria naquela prisão e a justiça não liberava uma visita. Ela conseguia colocá-los em contato às escondidas, através de mensagens de celular mas isso não era suficiente.

Então começou a entregar-lhe na prisão umas encomendas da amada. Eram uns potinhos de vidro com doces, geléias, compotas… não sabia bem o que era mas notou a melhora no estado de saúde de seu cliente. Com os doces ele retomou o ânimo e a vontade de viver.

Quando a advogada descobriu o conteúdo dos potinhos que entregava a seu cliente preso, abandonou o caso imediatamente. O advogado que ficou em seu lugar que era um cínico-corrupto-interesseiro, logo ofereceu conseguir uma visita íntima mediante o pagamento de uma pequena fortuna. Os amantes, desesperados, juntaram todo o dinheiro que podiam, vendendo carro, moto, apartamento… até o gato persa trazido da Etiópia foi vendido.

No dia da visita íntima, arranjada pelo novo advogado, ela estava radiante, usava um vestido longo de manga comprida que lhe cobria todo o corpo. Abraçaram-se longamente, chorando o amor, um no ombro do outro.

Ele envolvia todo corpo dela em seu abraço e começou apertá-la com as duas mãos. Ela sentia um prazer indizível quando ele apertava seu corpo. Gemia baixo para que ninguém os escutasse, como havia recomendado o advogado.

Quando tirou o longo vestido lhe faltavam pedaços por todo o corpo. Haviam sido arrancados e conservados em pequenos potes de vidro para que ele se alimentasse de sua carne enquanto estivessem longe. Você está linda, uma escultura! Disse ele, dominado pela beleza da imagem de seu corpo aos pedaços.

Ela sorriu e deitou-se na pequena cama da cela enquanto ele mordia as poucas partes ainda intactas em seu corpo. O prazer e a dor misturados com a saudade e a brevidade daquele momento a fizeram adormecer de satisfação, de saciedade, de fraqueza, de êxtase.

Ele estava há muito tempo sem ela. Se alimentando apenas dos pequenos pedaços de carne e sangue que ela fazia chegar a ele na prisão, passando por doces caseiros. Não estava satisfeito ainda. Queria mais.

Não tendo mais onde morder que não estivesse rasgado, abriu-lhe um buraco na sola dos pés com os dentes. E começou a morder-lhe a carne por dentro do seu corpo. A carne por dentro era mais vermelha e macia, isso lhe abriu o apetite. Ao invés de somente morder e comer a carne, ele começou a sugar o sangue quente da amada adormecida.

Na manhã seguinte ele foi levado para a solitária e o corpo sem vida dela retirado pelos fundos do presídio. Tiveram que mantê-lo amarrado, se debatia e gritava, incontrolável. Dias depois ele foi encontrado sem vida na cela. Morreu coberto de sangue, engasgado, tentando devorar a própria língua.

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