Sete dias nua

Depois de sete días nua, sem sair de casa, encaixei o relógio no pulso e quase caí com o peso.

Estava tão leve, tão limpa que as roupas limpas que vesti pareciam esterco roçando-me a alma.

Calma! São só os primeiros cinco minutos, logo te acostumas!

Duas horas depois caminhava pela vida como se as ruas e calçadas fossem de ferro, e eu um imã de cinquenta e dois quilos.

Me arrastei durante todo dia. O solo me puxava pra ele. Me queria alí, rastejando… Rastejando não! Me queira alí esfolando minhas mãos, meus joelhos, minha cara… o solo me queria.

Dediquei toda uma liturgia a mim mesma nesses sete dias e agora a vida quer me profanar! Me quer de quatro, lambendo o asfalto pra aceitar a crueldade do mundo aqui fora.

Peço pra sair mais cedo do trabalho. Digo que tive um acidente ontem limpando o jardim. Escorreguei numa lesma morta, caí de costelas na escada e bati a cabeça. Na hora achei que não fosse nada mas hoje sinto tonturas, expliquei…

Se oferecem para me levar ao pronto socorro. Difícil recusar relatando tontura e vista turva… aceito. Não tenho saída.

No hospital, entro pela porta da triagem e tento dispensar o solícito acompanhante que se recusa partir sem prestar-me total apoio. Isso inclui parar depois da consulta na farmácia e deixar-me em casa, deitada e medicada. Recomendação do chefe.

Olho para o médico. Relato o incidente com a lesma. Ele me olha. Não diz nada. Rabisca o prontuário. Marca dois X num pedido de exame, carimba olhando pra mim. Me entrega o pedido. Não diz nada.

Ele é medico. E velho. Deve saber que minto.

Volto com os exames feitos. O médico pega o envelope. Olha pra mim. Não diz nada. Chama um colega. Olham os exames. Discutem meu caso. Não dizem nada.

Os dois me olham. Me passam a radiografia da minha cabeça e apontam para a lateral esquerda onde se destaca uma mancha meio cinza meio marrom.

Meu deus! Grito assustada. É uma lesma! Tenho uma lesma no cérebro!!??

Eles acenam que sim com a cabeça. Me desespero e tento contar-lhes que era tudo mentira! Que nunca existiu lesma, nem queda, nem costela na escada! Que não havia batido com a cabeça, que foi só uma historia para voltar pra casa mais cedo porque a vida aqui fora, gritei, me estava a estrangular!

Mas os médicos estavam decididos a extrair a lesma do meu cérebro. Chorava e me debatia enquanto me jogavam numa maca e me arrastavam ao centro cirúrgico.

Horas depois acordei em casa. Com o solícito acompanhante ao lado segurando um copo de água e pílulas para a dor. Me assustei ao vê-lo. Lembrei do meu trabalho, da lesma, da mentira, do relógio me empurrando pro chão… Ele me mostrou as receitas médicas e o atestado de três dias de cama. Amém! Dormi 72 horas seguidas.

Até hoje não sei como aquela lesma foi parar no meu cérebro. Tinha sido apenas uma desculpa para ir embora. Nem sei como foi retirada…

Voltei a trabalhar das oito ás dezoito com uma hora de almoço… o relógio já não pesa mais no pulso e por via das dúvidas me desfiz do jardim e soldei grades na varanda.

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