Cheiro de Marlboro na mão de homem

Quando Nietzsche matou Deus, a ciência já havia matado todos os Deuses… já havíamos perdido a imaginação… aquela imaginação que não esbarra na possibilidade científica sabe… imaginação pura genuína… nossa mente já foi acorrentada… por isso temos dificuldade de atingir o prazer supremo – dizia ela com essas pequenas pausas entre uma frase e outra como se pensasse sobre o que estava a falar mas eu sabia que esse discurso ela tinha de memória. Ela sempre tentava justificar sua imaginação corrosiva.

Levantei, acendi um cigarro na vela que derretia entre as sobras do jantar na mesa. Lá fora, na varanda do casarão de pedra, aguento dar três tragadas, a fria Galícia se põem mais fria no inverno.

Volto pro calor da sala, aquecida por uma enorme lareira medieval. Ela está deitada, nua sobre o tapete de pele. De urso creio, é muito macio e de um negro tão negro que só poderia ser encontrado nas criações divinas.

Aproximo-me dela, está quente, ela está sempre quente. E na contra mão de todas as mulheres que havia conhecido, pede minha mão, a mão que segurava o cigarro.

– Você fumou com a direita ou com esquerda? – Pergunta com ar infantil.

– Com essa – estendo-lhe a mão direita.

Era como se lhe desenrolassem um tapete de sete cores que ao final lhe daria um baú de tesouros! Seus olhos se encheram de amor, ou de êxtase ou de angústia, não sei bem, era difícil decifrá-la.

Ela leva minha mão com as suas para bem perto de seu rosto, minha mão direita, enorme, que fica ainda maior quando se aproxima daquele rosto pequeno e pálido do inverno europeu. Aproxima ao máximo minha mão de seu rosto sem tocá-lo e enquanto inspira muito profundamente fecha os olhos. Quando os abre, me fita e diz: adoro cheiro de Marlboro na mão de homem – e vem com um sorriso ainda mais indecifrável que seu olhar, um sorriso violento, sedento, desesperado. Ela pressiona minha mão na lateral de seu rosto e vai descendo pela nuca, pelo ombro pelos seios e vai arrastando minha mão de Marlboro por todo seu corpo, sentindo um prazer enorme em espalhar aquela nicotina fétida em toda sua pele branca. Era como se seu corpo se fizesse em chamas quando o cheiro do Marlboro o alisa.

Mal posso tocá-la, seu corpo está quente, queima. Minhas mãos ardem ao tocá-la mas ela não precisa ser tocada, submerge em um deleite próprio enquanto faíscas saltam de seu corpo inteiramente nu. Seus olhos fechados a impedem de ouvir ou ver, ela se move lentamente gemendo de prazer no calor do fogo que seu corpo espalha pelo quarto. De posse da minha mão direita, ela a leva novamente até seu rosto e espalha os útimos vestígios de Marlboro pelo seu pescoço e pressiona minha mão sobre ele. Com suas duas pequenas mãos ela aperta a minha enorme mão direita, fedendo a Marlboro, envolta de seu pescoço, sua pele esta fervendo, ela aperta mais ainda minha mão. Aperta cada vez mais, sinto seu corpo se debater lentamente sob minha mão de Marlboro, seu pescoço está em chamas, fica pequeno em volto pela minha mão, ela está suspensa, seus olhos escorrem, seus cabelos estão em chamas, ela está derretendo.

Em segundos ele assiste paralisado seu corpo apagando, mudando de cor, ela virando cinzas e se derramando como água na pele preta do urso morto no chão da Galícia.

– Senhor, senhor!

– Ãh? Ah! Sim. Desculpe moça…

– Um maço ou um pacote?

– Dois pacotes e uma água, por favor.

– Cartão ou dinheiro?

– Cartão… Moça… você gosta de cheiro de Marlboro na mão?

– Afe! Que nojo! Claro que não. Senha por favor.

Ele vai pra casa com os pacotes de Marlboro. Senta-se ao pé do aquecedor e fuma. Um após o outro. Sempre apagando a bituca em seu corpo. Ora nos seus braços, ora nas pernas. Só assim pode senti-la novamente…

Só assim pôde realizar a imaginação, pura e irreal como naqueles tempos que ela descrevia sorridente, antes da ciência, bem antes de Nietzsche matar Deus… Só quem exerce o poder de ignorar a ciência e a dor que ela explica, é capaz de aceder ao imaginário mundo do prazer. Tudo disparado pela imaginação do fogo criminoso, do cheiro de Marlboro na mão de homem.

Apagou a última bituca no ombro e dormiu, com o aquecedor ligado numa noite quente do verão carioca.

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