Quando a tempo não acabava

Fomos amantes desde que nos conhecemos. Na Amazônia durante um evento. Ele estrela, eu produtora. Inevitável, estava destinado. Paixão de primeira olhada. Fomos literalmente acorrentados pelo tornozelo. Só saltei porque era ele, porque era com ele… Dali pra frente tivemos uma relação única (pelo menos pra mim nunca se repetiu) nos encontrávamos por aí, Rio, Sampa, Bahia, onde a vida permitisse uns dias, ás vezes apenas uma tarde… o mais indecifrável disso tudo era que as despedidas não doíam, nunca havia tristeza nesse adeus. Também não haviam planos, nem pedidos e talvez nem desejos eram só aqueles momentos, aqueles beijos intermináveis numa época em que o tempo não acabava.

Ele era aquariano, judeu de familia polonesa radicada em São Paulo e me dizia que quando fizesse 40 anos se casaria e teria um filho. E de fato assim aconteceu, se casou com uma judia burguesa como ele e tiveram um filho de enormes olhos azuis. Chorei de uma estranha felicidade quando o vi realizando tão minuciosamente seus planos. Nunca tive ciúmes dele nem ele de mim. Era o amor fati nietszchiano em sua potência máxima. Amar a vida como ela se apresenta.

Seguíamos nos falando sempre, depois do casamento já sem pretenções de encontros. Cachorra ele me chamava, e dizia que sabia que não nos veríamos mais, eu também sabia mas não imaginava que quem nos separaria seria a morte. Ele já sabia. Tentou me alertar mas eu ainda não entendia essa linguagem do fim.

Sua última postagem foi um coquetel de remédios com a legenda daquela musica que diz: envelheço na cidade… Dizer que sinto saudades seria embriaguez, mas sempre entro no face dele pra comer aquele sorriso delicioso que nao para nos dizer: vivi tudo que tinha pra viver, até a próxima! Vivam!

Ainda nao decifrei nosso encontro, nossos momentos nessa vida, ainda tenho os presentes, os bilhetes e o cheiro de Marlboro na mão… ainda me parece que vai chegar uma mensagem: tá por onde?

Mais estranho que viver é ver a vida se esvaziando dessa forma… ver aqueles que te deram tanto amor partindo, sem chance nenhuma de coincidir num aeroporto qualquer…

Ainda sim obrigada! Me deu mais que amor, amou na liberdade. Pra poucos! Tinha que ser com você.

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