Uma cova aberta

Acordou morto. Fazia dias que não aparecia na mercearia para comprar tabaco. Café não bebia há semanas e o jornal se erguia em pirâmide no capacho da porta.
A vizinhança notava mas ninguém se animava a trocar palavra, já tinham visto esse proceder outras vezes. Parecia-lhes que de tempos em tempos Agenor Poeta vivia em velório.
Do boteco à farmácia cogitava-se de tudo. Assassinato, suicídio, câncer, drogas, tuberculose, hemorróida…
No dia seguinte saiu o laudo. Na autopsia descobriram que carregava um cemitério dentro do peito. Entre covas rasas e fundas encontraram uma cova aberta, com duas pás de terra dentro e ainda jorrando sangue.
Causa da morte: falta de força para seguir levantando a pá.

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